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Consumo excessivo de bebidas doces aumenta o risco de depressão

  • 21 de janeiro de 2013
  • crn1

Quais são os possíveis riscos contidos em um copo de refrigerante, seja ele açucarado ou dietético? E das bebidas industrializadas que têm frutas como base? É fácil relacionar a ingestão a doenças como obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão. Isso porque esses líquidos estão ligados ao aumento rápido da produção de insulina pelo organismo, promovendo uma maior entrada de açúcar nas células e levando, entre outros fatores, ao acúmulo de gordura. Os danos do consumo excessivo, porém, podem refletir no funcionamento adequado do cérebro. Em estudo que será apresentado em março no 65º Encontro Anual da Academia Americana de Neurologia, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciências de Saúde Ambiental, dos Estados Unidos, mostram que esses alimentos também podem aumentar o risco de depressão em adultos e em idosos.
O neurologista Honglei Chen, da Academia Americana de Neurologia, e sua equipe avaliaram o consumo de bebidas açucaradas, dietéticas, cafés e chás e detectaram uma possível relação com a depressão. Em torno de 260 mil adultos americanos tiveram os hábitos alimentares acompanhados entre 1995 e 1996. Cerca de 10 anos depois, foram questionados sobre a existência do diagnósticos de depressão a partir de 2000. Os resultados sugerem que ingerir bebidas adoçadas, especialmente as dietéticas, está associado a um maior risco de depressão em adultos, enquanto a ingestão de café puro estaria ligada a um risco ligeiramente mais baixo.De acordo com o estudo, indivíduos que beberam quatro ou mais latas ou copos de refrigerantes por dia tinham 30% mais chances de desenvolver depressão que aqueles que não consumiram a bebida. Já os que ingeriram bebidas de fruta industrializadas tinham um risco ainda maior: 38% se comparados àqueles que não ingeriram bebidas açucaradas. Curiosamente, esse risco foi 10% menor para os que ingeriram quatro ou mais xícaras de café sem açúcar por dia.
A exata relação sobre a dosagem e a resposta do organismo varia de acordo com o tipo de bebida, alerta Chen. Um risco significativamente maior foi observado para uma ou mais latas de refrigerante, por exemplo, enquanto o mesmo foi observado para o consumo de quatro ou mais copos de bebidas de fruta. Ele explica que o estudo não foi desenhado inicialmente para avaliar a ação de açúcares e adoçantes artificiais, mas sim uma pesquisa global dos hábitos alimentares. “No questionário, pedimos a frequência de consumo de bebidas para cada tipo. As açucaradas, os cafés e os chás são consumidos em todo o mundo e têm importantes consequências na saúde física e mental”, considera. Chen planeja novos estudos prospectivos que confirmem os resultados encontrados.
Para Márcia Chaves, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o efeito do consumo de açúcar no cérebro é conhecido há muito tempo, mas sua associação com a depressão é uma novidade. “A depressão é um sintoma de uma síndrome psiquiátrica, do transtorno depressivo do humor. Há hoje o conhecimento de que o desequilíbrio de alguns sistemas neuroquímicos está associado à depressão, como a serotonina”, detalha. Chaves explica que as variações da glicemia, que corresponde à concentração de açúcar no sangue, estão associadas a algumas manifestações neurológicas, especialmente quando ocorre uma redução grave que causa crise convulsiva. Essa redução também conhecida como hipoglicemia ainda é capaz de causar certo déficit cognitivo, com efeitos na memória. Já a hiperglicemia, a elevada concentração de açúcar no sangue, pode causar alteração da consciência, chegando ao coma.
Um segundo fator chama a atenção na pesquisa de Chen. O risco de depressão parece ser um pouco maior para as pessoas que consumiam bebidas dietéticas. Uma análise mais profunda feita pelos pesquisadores sugere associações mais fortes da depressão com bebidas adoçadas artificialmente. Aquelas com aspartame, presente em grande parte dos produtos industrializados dessa espécie, seriam as mais prejudiciais. Ao comparar as mesmas bebidas nas variações dietética e regular, os dados mostram que os refrigerantes sem açúcar estão ligados ao maior risco de depressão (31%) que a forma regular (22%). O mesmo acontece entre bebidas dietéticas com frutas (51%) e regulares (8%), e entre os chás diet (25%) e as versões normais (risco 6% menor).
O autor principal do estudo acredita que, mesmo com resultados preliminares e sem o conhecimento dos mecanismos biológicos envolvidos, os dados são intrigantes e seguem a linha de um número crescente de evidências sugerindo que bebidas adoçadas artificialmente podem estar associadas a resultados pobres de saúde. “Ao mesmo tempo em que evitam o aumento calórico, nossos resultados sugerem que elas estão mais associadas à depressão. Nossa pesquisa sugere que cortar ou diminuir bebidas dietéticas adocicadas ou substituí-las por café sem açúcar pode, naturalmente, ajudar a diminuir o risco da doença”, conclui.
A nutricionista Maria Flávia Giordano, especialista em saúde pública e coletiva, conta que ainda existe muita polêmica  entre a população leiga e entre a comunidade científica em torno das bebidas dietéticas e os adoçantes presentes nelas. “Estudos na área já relatam muitos indícios concretos de malefícios dos adoçantes artificiais ao organismo humano, inclusive, no sistema nervoso central. O aspartame é um clássico nessas discussões. As pesquisas relatam que os componentes da sua molécula, como o ácido aspártico, a fenilalanina e o metanol, podem causar lesões cerebrais e bloquear a produção de serotonina.” Baixos níveis de serotonina no cérebro provocam insônia, depressão, angústia e mau humor.Dores de cabeça, ganho de peso, alterações no nível de colesterol, irritabilidade, ansiedade e depressão seriam, segundo Giordano, sintomas de referência nos estudos com refrigerantes e produtos diet e light. “Na prática clínica, podemos observar que, quando o consumo diminui ou é retirado, os sintomas acompanham e até mesmo desaparecem”, avalia. A pesquisa de Chen sugere que os refrigerantes e sucos adocicados sejam substituídos pelo consumo moderado de cafés e chás sem açúcar, o que Giordano considera uma troca complicada para o público acostumado com o outro tipo de bebida. A ingestão de café, no entanto, teria efeitos benéficos para a saúde quando feita com moderação. A recomendação equivale a 500mg de cafeína, de quatro a cinco xícaras de 50 ml por dia.
 
Fonte: Estado de Minas Online